Nesta edição

ILUSTRAÇÃO: Anna Kontonikola

Receber, pagar, investir, cobrar: verbos muitas vezes associados ao dinheiro mas nem sempre capazes de exprimir a enxurrada de relações que este pequeno substantivo pode arrastar.

O dinheiro, mesmo que tenha um significado universal — ser um bem que, nas sociedades modernas, possibilita a troca e circulação de outros bens — toma ainda diversas formas e implica todo um arsenal de conceitos para seu trato. Entretanto, o dinheiro é uma invenção, e por isso tem uma história, seja seu ponto de partida reconhecido no tantinho de sal recebido pelos soldados do império romano para a troca por outros produtos (o salarium argentum, ou "pagamento em sal", de onde deriva a palavra "salário"), seja na criação das primeiras moedas da Idade Moderna, que visavam uniformizar as medidas e valores dos vários reinos europeus de então — como aprendemos no colégio.

O mais extraordinário desta invenção, porém, é que ela desdenha de sua própria história. Para o dinheiro, tanto faz ter surgido com os soldados da Roma clássica, com os Estados modernos da Europa ou com o Cruzeiro da república brasileira. Mais do que uma história, com o advento do capitalismo, o dinheiro ganhou uma alma, e ele próprio se impõe tanto sobre nós, do dia de nosso nascimento até o último dia de nossa existência, que sua alma já é parte da nossa. Ele é, direta ou indiretamente, o mediador de todas as nossas ações e relações, e de maneira tão profunda que mesmo o sujeito mais miserável que se pode encontrar sabe como o dinheiro toma um grande espaço de se seu ser, mesmo que seja só pra deixá-lo vazio.

Contrariando, entretanto, o que pensam alguns, a História ainda caminha e, hoje em dia, a passos largos o suficiente para causar certa vertigem aos descuidados, e o capitalismo, quanto mais estende seus tentáculos pelo planeta, mais desfigurado fica; e aqueles que guardam um retrato dele datado de outros séculos, junto com um receituário da época, já têm alguma dificuldade em reconhecê-lo e em lidar com ele. Por isso, longe de colocar à prova a máxima marxiana de que toda formação histórica traz em si os germes de sua própria destruição, nossa intenção ao produzirmos esta edição foi de, dentro de nossos limites, atualizar aquele retrato.

Em épocas em que se decreta, triunfante, o fim da era neoliberal, esse segundo número da FIGAS pretende investigar e expor novas e velhas relações dos indivíduos com o dinheiro. São ideias, reflexões e devaneios que trazem consigo uma só aspiração: enriquecer o debate a partir de experiências e percepções variadas, seja em grande escala, pelas lentes da macroeconomia, ou em situações cotidianas, mas sempre com foco no papel que o dinheiro desempenha como personagem ativo e muitas vezes determinante das situações narradas.

Boa leitura e boa sorte!

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